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SER HUMANO NÃO É FÁCIL

O que queremos para nós é o mesmo que pedimos aos outros? Como competição e cooperação podem andar de mãos dadas?

“Quando o que mais necessitamos é de um bom par de braços e mãos, temos de levar um humano cheio de vontades junto.”
(Frase atribuída a Henry Ford)

Parece bem pouco inspirador começar uma postagem sobre Recursos Humanos, sobre pessoas, com uma citação como esta. Afinal, o que esperamos do trabalho é muito mais do que sermos um bom par de braços e mãos.
Encaramos o trabalho como uma forma de auto-realização, de desenvolvimento em toda plenitude de nosso potencial e de reforço à auto-estima por intermédio de um bom salário, que garanta a satisfação de nossas necessidades.

Almejamos um bom ambiente, que nos dê segurança e fortaleça as relações sociais. Desejamos, enfim, um trabalho em si dignificante, que valorize o que temos de melhor, que são nossos conhecimentos, nossas habilidades, aptidões e responsabilidades.
Tudo isso é muito bom para o nosso trabalho. E quanto ao trabalho dos outros? Será que pensamos nas mesmas coisas com relação ao trabalho alheio? Ou será que, por fim, concordamos com a citação?
Tendemos a considerar tudo o que nos diz respeito mais importante do que o que diz respeito aos outros. Isso é natural. Se não fosse, não estaríamos aqui.
Ser natural não traz nenhum sentido de julgamento nem de valor.
Ser natural quer dizer apenas que é de nossa natureza. Não significa estar certo ou errado, ter moral ou não. Assim, a importância que damos a nossos anseios em relação aos dos outros – nosso egoísmo – explica-se porque, ao longo da história evolutiva, essa característica cumpriu papel importante.
Imagine se, em algum lugar do passado longínquo, um ancestral seu ou meu tivesse escolhido o caminho do “bom samaritano das cavernas”, ficando sempre por último – na coleta de frutas, na divisão da caça ou, principalmente, na corte às mulheres. Muito provavelmente, esse indivíduo geraria poucos descendentes ou nenhum e um de nós dois não estaria aqui. Por outro lado, se esse mesmo ancestral tivesse decidido ser o “ganancioso das cavernas”, por sua inabilidade social e incapacidade cooperativa, também, provavelmente, não deixaria muitos descendentes.

Competição e cooperação
Somos animais sociais, vivemos em grupos, e aqueles que não se enquadram nas normas acabam isolados.
Naturalmente sempre existiram conflitos nos grupos. Nunca foi fácil viver em sociedade. Equilibrar egoísmo-competição e solidariedade-cooperação não é tarefa simples.
Porém, como depois de tanto tempo ainda estamos aqui, podemos intuir que a cooperação também cumpriu seu papel. Somos todos competitivos, egoístas, solidários e cooperativos por natureza – em diferentes graus, é claro.
Se você duvida, lembre-se da última reunião de condomínio ou de pais de alunos de que participou.

Naturalmente sempre existiram conflitos nos grupos. Nunca foi fácil viver em sociedade. Equilibrar egoísmo-competição e solidariedade-cooperação não é tarefa simples.

Praticamente todas as reuniões nas quais exista conflito entre o interesse individual e o coletivo – e mesmo entre um indivíduo e outro – começam com cada parte “puxando a brasa para sua sardinha” e, com um mínimo de bom senso, chegam ao final com algo que podemos chamar de acordo.
No que tange ao trabalho, o cenário não é diferente. A competição pelo “filé mignon” sempre foi muito maior do que pelo “osso”.
Levar cada um a roer os “ossos” necessários para fazer jus a uma distribuição justa do “filé mignon” é o segredo do sucesso do trabalho em grupo.

Devemos estar sempre cientes de que, ainda que o “ser humano não seja fácil”, é na capacidade de lidar com nossos semelhantes que reside o segredo do sucesso ou o fracasso de qualquer empreendimento.

Ao trabalho!
O trabalho não foi inventado ontem. Desde que o homem é homem, já existia uma certa divisão do trabalho que devia ser executado para a sobrevivência dos membros de um grupo.
No tempo dos caçadores e coletores, as mulheres cuidavam das crianças enquanto os homens saíam para a caça e a coleta. Os homens também se juntavam para defender seu grupo de ameaças de outros grupos – ou para atacá-los.
Tudo isso ocorreu muito antes de existirem designações como donas de casa, empregadas domésticas, agricultores ou exércitos.
Passamos de grupos para tribos, depois, para aldeias, em seguida, para pequenas cidades e para cidades maiores, até que chegamos às metrópoles e megalópoles.
Formamos estados e nações, erguemos monumentos, catedrais, arranha-céus, pirâmides; guerreamos e devastamos o mundo em que vivemos; voamos e viajamos ao espaço; aumentamos drasticamente nossa expectativa de vida e deciframos o genoma humano; criamos empreendimentos planetários, empresas maiores que estados.
Tudo como fruto do trabalho que migrou de regimes de escravidão para semi-escravidão, que se transformou em jornadas de 16 horas diárias e sete dias por semana e evoluiu para jornadas de 8 horas de cinco a seis dias por semana, que partiu de salários “de fome” até alcançar remunerações mais dignas, e que engloba exploração de trabalho infantil e aposentadorias muitas vezes inglórias. Em maior ou menor escala, ainda vivenciamos todas essas práticas, mesmo as consideradas primitivas e desumanas.
Construímos e destruímos num equilíbrio dinâmico entre competição e cooperação, egoísmo e altruísmo, “eu” e “nós”. Uma eterna disputa por mais “filé mignon” e menos “osso”, pela “parte que nos cabe nesse latifúndio”.

Empreitada humana

Nosso objetivo não é julgar os protagonistas dessa disputa ao longo da história nem o que cabe ou deveria, em tese, caber a cada um.
Particularmente o que nos interessa são as relações de trabalho na empresa moderna. Como não resta dúvida de que, em última instância, as empresas são formadas por seres humanos, nós, como tais, carregamos essas características de competitividade e cooperação.
Portanto, Devemos estar sempre cientes de que, ainda que o “ser humano não seja fácil”, é na capacidade de lidar com nossos semelhantes que reside o segredo do sucesso ou o fracasso de qualquer empreendimento.

Mais ossos ou mais filés
A frase de – ou atribuída a – Henry Ford, precursor da indústria automobilística, mostra um tanto quanto friamente a “importância” do trabalhador em uma fábrica. Ele é um recurso como outro qualquer, uma coisa tal qual uma máquina, um ativo que deveria cumprir suas tarefas repetitivamente e de maneira eficiente.
Porém, antes de maldizermos Ford por essa afirmação, devemos lembrar que o “pai” da linha de montagem, além de pagar bons salários, defendia que o produto final de sua indústria – o automóvel – deveria ser acessível à classe trabalhadora: “Quem produz um automóvel deve ter condições de adquirir um”. Por seus pensamentos fora de época, o fundador da Ford foi taxado de “comunista” e expulso da Associação Comercial Americana no início do século XX.
Não há como negar o estupendo aumento de produtividade e a conseqüente queda vertiginosa nos custos da produção de automovéis com o advento dos conceitos de Ford. Baseados nele configurou- se a transição de um modelo de produção artesanal, no qual um grupo de trabalhadores montava um veículo do início ao fim, para a linha de montagem, na qual cada trabalhador era responsável por uma pequena etapa do processo – como o encaixe de uma determinada peça – repetida constantemente ao longo da jornada de trabalho.
Por outro lado, é inegável o distanciamento entre o trabalhador e o produto final de seu trabalho, ao que Karl Marx, este sim um autêntico comunista, chamara, muito tempo antes, de alienação do trabalhador.
Diferentemente de um artesão que dominava cada etapa da produção do começo ao fim, o trabalhador industrial só dominaria uma ínfima parcela do todo.
Feliz e gradativamente, como veremos a seguir, essa redução do ser humano a sua capacidade física e motora não durou para sempre.
Parte do “filé mignon” foi a obtenção de trabalhos dignos e a utilização da capacidade intelectual de que dispomos.
Paradoxalmente, ao “explorar” mais a capacidade intelectual do que a física dos trabalhadores, acabou sobrando mais “filé” para todo mundo.
E, já que começamos com Ford, terminemos com ele:

“As empresas precisam ter o lucro como objetivo, do contrário, elas morrem. Mas, se uma empresa é orientada apenas para ter lucro, (...) também morrerá, porque não terá mais nenhum motivo para existir”.

Parte integrante do livro Isto É Gestão Empresarial - Como Gerenciar Pessoas

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